Friday, October 09, 2009

O retorno de Leminski

Quando Leminki olhou nos meu olhos e disse:

"o que quer dizer diz,

não fica fazendo o que um dia eu sempre fiz..." ,

balancei a cabeça e obedeci!

Saí como menina que obedece ao pai severo

e que reconhece a sabedoria das suas palavras (mesmo com o coração batendo acelerado, a inevitável ponta de medo).

Saí de peito aberto, protegida e autorizada pelo mais experiente do bando:

o poeta louco.

Fecho os olhos Leminski, e agradeço com os versos que não são mais tão teus:

"só se dizendo num outro, o que um dia se disse, um dia será feliz".

Allana Moreira e Silva

Saturday, February 14, 2009

Sendo assim que seja Amor


Senhorita Vida, que o Amor seja o meu guia
e que estrelas despejem em meu caminho
a luz furta cor
de mistérios sempre a desvendar.
Que minha alma seja vasta
como vasto é o mar...
e que meus olhos jamais se cansem
das Tuas belezas
mesmo quando repouse as minhas pálpebras
e adormeça em Teus braços devagar.
Amada Vida, que minha vista se estenda
para além do circunscrito espaço que a ignorância me ditar,
e que o sopro que penetra em mim
pelos poros nem sempre óbvios,
seja alimento que vivifica as minhas partes de
água,
fogo,
terra,
ar...
espírito de lua, de sol, de mar e de rio
Rindo gostosamente do Tempo
que pensa que pode me enganar.
Que a Luz que me penetra
penetre em todos,
Seja ele bicho, gente, cometa
ou nada seja que se possa nomear.
Esplêndida Vida,
fazei de mim uma suave pena
e ensina-me voando a voar.
Texto: Allana Moreira e Silva

Wednesday, December 31, 2008

Religare


Religare este tal que conecta
o passado ao presente,
o transcedente à mente.
Metade do corpo inerte à metade que sente.

Religare das estruturas vãs,
das memórias com cheiros e sons,
das músicas de tantas manhãs...
tudo dentro da forma de gente.

Religare do homem africano
no canto da moça branca com enfeites.

Este tal religare
que liga o que não se sabe
ao escondido de mim que se estende...
estendendo a memória que mal vi
no relance do sentido presente.

Texto: Allana Moreira e Silva

Saturday, August 16, 2008


Plena sim,
como o maior sol reluzente que ocupa todo o espaço da janela
como a rosa gritando que o jardim é só dela
e no miolo da vida a abelha lambuza-se sem espera...

Na mãe criadora
o ventre profuso
aguarda pra parir na primavera
e eu, pequenina, me misturo com ela.

Misturo nas cores
mas de preferência amarela
e entre jóias brilhantes
é ouro que reluz
no centro do peito farto da mãe bela.

Friday, July 04, 2008

São Francisco Yogue


Senhor,
Fazei-me instrumento de vossa paz.

Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre,
Fazei que eu procure mais consolar, que ser consolado;
compreender que ser compreendido;
amar, que ser amado.

Pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.
Amém.

Thursday, May 29, 2008

Onde o limite é a pele...

Pode parecer loucura tudo isto...
Pode parecer loucura não ter nada disto...
Em cada fragmento de alma
A partícula alfa
explosiva em sua casca
jorrando suco doce de vida.

Expulsa vida nos gritos melódicos da mulher descabelada,
na história das portas e das fechaduras encantadas,
na dúvida explícita se se é homem ou se não é nada...
Corpos sem orgãos
querelantes por uma chance para explicar
como, quando e onde se atravessa a porta para algum lugar,
desconhecido lugar...
que pode ser o outro,
que pode ser Deus,
que pode ser uma existência estelar...

O malandro que me ensina a ser esperta
O robô que a minha humanidade desperta
A mulher desesperada que com sua lágrima me acerta!

É assim a loucura da vida cheia de vida
sem roupas, sem armaduras
sem a hipócrita medida
coexistindo o fim, o meio e o começo
no grito melódico da mulher descabelada.

Texto: Allana Moreira e Silva

Tuesday, May 27, 2008

Bilhete de geladeira

Caro amigo Pedroca,

vôo de volta com o coração cheio de saudades.
Dei-me conta que me esqueci de te deixar uma pequena lista que poderá ser útil nos seus percursos...

Manera com o cigarro e coma mais mamão
e, todas as vezes que subir a escadaria
não se esqueça de comprar o pão.

Coma aveia e flocos de milho,
adoce com melaço,
coloque banana
e vá sentar lá no chão da varanda
para que nunca perca a esperança.

Anda mais lento
pra sentir bem o vento
e acorda mais cedo
pra dar tempo de um alongamento.

Cuida de varrer a casa
dia sim, dia não...
e não se esqueça do desinfetante,
papel higiênico
e do sabão.

Amigo Pedroca,
sei que não é simples viver nessa cidade:
pegar ônibus,
respirar apressado,
meio sem direção...

Mas sei também que os novos amigos do "acaso"
Lisa e Tromba ao seu lado,
você suporta bem a solidão.

E hoje,
sentindo o amor pulsante
Desse menino-homem,
aprendiz-intinerante
que te falo sem preocupação:
tudo está dando certo amigo irmão!

Texto: Allana Moreira e Silva